O eleitor americano e as Big Techs
Na Carolina do Sul, a republicana Darline Graham assumiu a cadeira do irmão, o senador Lindsey Graham, depois da morte dele, e chegou à eleição de 3 de novembro com o apoio de dois super PACs, grandes fundos de campanha ligados à indústria de inteligência artificial. Eles gastaram US$ 4,8 milhões na campanha dela. A adversária, a democrata Annie Andrews, passou meses chamando a senadora de “Data Center Darline” e prometeu uma moratória de dois anos para novos data centers no estado. Andrews venceu num estado que costuma votar nos republicanos.
O apelido resume o que aconteceu em boa parte dos Estados Unidos. Os bilionários da tecnologia gastaram como nunca para eleger um Congresso favorável à expansão da IA, e muitos dos candidatos que eles bancaram perderam para quem fez campanha contra eles. Quem trabalha com campanhas e organizações no Brasil tem o que aprender com a forma como essa reação foi organizada.
O dinheiro do Vale do Silício na eleição
As midterms de 2026 foram estimadas como as mais caras da história e terminaram com os democratas no controle da Câmara e do Senado. Elon Musk doou mais de US$ 470 milhões a grupos políticos e gastou mais de US$ 200 milhões só para tentar derrotar o democrata James Talarico na disputa pelo Senado no Texas. Talarico venceu com cerca de 55% dos votos. No mesmo estado, Gina Hinojosa, que defendia moratória para novos data centers, ganhou o governo.
A indústria de IA montou a própria máquina. O Leading the Future, rede de super PACs lançada em agosto de 2025 com promessas de US$ 100 milhões de nomes como Marc Andreessen e Joe Lonsdale, cofundador da Palantir, queria barrar leis estaduais sobre IA e impor uma regra nacional mais branda. Greg Brockman, presidente da OpenAI, doou US$ 25 milhões e desistiu em junho de uma segunda doação do mesmo valor. Ron Conway, um dos primeiros apoiadores, se arrependeu da contribuição. O grupo sai do ciclo com pouco mais de US$ 20 milhões em caixa. Para Charlie Blaettler, da Guardrails Alliance, que fazia campanha contra a influência do setor, o Leading the Future evitou as disputas apertadas porque o dinheiro dele viraria passivo para o candidato.
Nas consultas populares, os eleitores rejeitaram data centers em 40 das 41 medidas que foram a voto.
Da nuvem para a conta de luz
Data center é assunto abstrato até alguém mostrar onde ele fica. Na pesquisa de boca de urna da NBC, 76% dos eleitores disseram ser contra novos data centers na própria comunidade, e 56% afirmaram que a IA e os data centers pesaram no voto para o Congresso. As campanhas que ganharam com esse tema trataram a expansão da IA como problema local, a começar pela conta de energia.
No Ohio, Sherrod Brown, que a indústria de criptomoedas ajudou a tirar do Senado em 2024, voltou ao cargo apesar de US$ 55 milhões gastos contra ele por super PACs do setor. Pôs o custo da energia puxado pelos data centers no centro da campanha e prometeu enfrentar as Big Techs. O adversário, o senador republicano Jon Husted, tinha o apoio de Andreessen, Horowitz e de bilionários da Palantir.
Oito candidatos a governador que defenderam moratória para novos data centers derrotaram adversários favoráveis à expansão, entre eles Hinojosa no Texas e Keisha Lance Bottoms na Geórgia. O resultado texano pesa mais porque o estado atraiu neste ano mais projetos de data centers do que qualquer outro, 33 negócios avaliados em US$ 131 bilhões.
Em linguagem de campanha, isso é segmentação por território e por causa. Um eleitor que nunca se mobilizou por um debate sobre regulação de algoritmos presta atenção quando descobre que a conta de luz da casa dele subiu por causa de um galpão de servidores a alguns quilômetros. A candidatura que tem esse dado organizado, por bairro e por tema, consegue falar com ele na hora certa e com o argumento que faz sentido para ele.
US$ 38 por vez
Do outro lado havia outro tipo de dinheiro. O ActBlue, plataforma de arrecadação usada pelos democratas, registrou o recorde de US$ 833 milhões no terceiro trimestre de 2026, acima dos US$ 586 milhões do trimestre anterior. No primeiro trimestre, a doação média foi de US$ 38, e 686 mil pessoas doaram pela primeira vez pela plataforma. O comitê nacional democrata informa que esse dinheiro chega por e-mail, mensagem de texto e anúncio online.
Uma doação de US$ 38 vale pouco sozinha. Ela deixa para a campanha um registro com nome, contato, cidade e a causa que levou a pessoa a doar. A campanha pode voltar a falar com essa pessoa no dia seguinte, convidá-la para uma atividade no bairro e pedir que ela leve um amigo para votar. Cada doação é um cadastro com consentimento, e esse cadastro fica com a organização quando a eleição acaba.
O Leading the Future tinha o caminho inverso. O dinheiro vinha de poucos doadores muito ricos e chegava ao eleitor como anúncio. Quando o nome desses doadores ficou tóxico, o dinheiro perdeu utilidade, e o grupo terminou a eleição com milhões parados no banco.
Onde o dinheiro da IA ganhou
Dos 179 candidatos apoiados por bilionários e super PACs de IA, 109 venceram e 36 perderam até a tarde de quarta-feira, com 34 disputas ainda sem definição. A Forbes, que fez a conta, observa que a maior parte dessas vitórias veio em disputas pouco competitivas.
A indústria também levou a briga mais cara do ciclo. O Leading the Future gastou mais de US$ 8,1 milhões contra Alex Bores, deputado estadual de Nova York e coautor do RAISE Act, lei estadual de segurança em IA, e Bores perdeu a primária democrata em junho. O vencedor, Micah Lasher, também fez campanha defendendo regras para o setor, recusou o apoio da indústria e pediu uma moratória nacional para data centers.
Há ainda o efeito da onda democrata, que a TechCrunch lembra ser difícil de separar do peso do gasto ligado à IA. Os números sustentam uma conclusão menor do que “as Big Techs perderam a eleição”: nas disputas apertadas, ter o setor de tecnologia ao lado virou desvantagem, e os candidatos que fizeram campanha contra ele ganharam terreno.
E no Brasil
Por aqui, o data center ainda não chegou ao debate eleitoral. A disputa sobre quem controla a infraestrutura digital, e em benefício de quem, já está posta, e a eleição de outubro voltou a circular quase toda por plataformas que pertencem a essas mesmas empresas.
A experiência americana deixa duas lições práticas para quem organiza campanhas, mandatos, sindicatos e movimentos. A crítica às Big Techs só virou voto quando chegou ao endereço do eleitor, e isso exige saber onde ele mora e o que o preocupa. E a arrecadação que sustentou as candidaturas vencedoras veio de milhões de pessoas cadastradas e acionadas por e-mail e mensagem, num canal que a campanha controla. As duas coisas dependem de uma base própria, organizada por território e por causa, que continua de pé quando o algoritmo muda.
A EVAG estrutura bases com consentimento, segmenta contatos e opera comunicação direta por e-mail, SMS e WhatsApp para mandatos e organizações. Se a sua quer começar 2027 com essa estrutura montada, fale com a gente em evag.com.br.