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A primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, não interessa à EVAG como documento religioso. Não é esse o nosso ponto de partida. O que interessa é o sinal político que ela emite. Quando uma das instituições mais antigas, hierárquicas e conservadoras do mundo decide dedicar seu primeiro grande texto de um novo pontificado à inteligência artificial, é porque o tema deixou de pertencer apenas aos laboratórios, às startups, aos especialistas em tecnologia e aos entusiastas da inovação.

A inteligência artificial entrou no centro da disputa social contemporânea. Ela reorganiza formas de trabalho, circulação de informações, produção de conhecimento, mediação política, segurança, educação, cultura, comunicação e guerra. Por isso, não pode ser tratada como simples ferramenta, muito menos como um avanço inevitável diante do qual restaria apenas adaptação.

O debate sobre IA precisa sair da oposição genérica entre entusiasmo tecnológico e medo da automação. O ponto decisivo está nas estruturas de controle: quem domina a infraestrutura, quem lucra com seus usos, quem define suas regras, quem responde por seus danos e quem fica dependente dela.

Essa é a base de uma leitura laica, crítica e materialista do debate aberto pela encíclica. Não precisamos aceitar a linguagem religiosa da dignidade humana como horizonte explicativo para reconhecer o fato político mais relevante: até um ator global como a Igreja Católica percebeu que a IA está inserida em relações concretas de poder, propriedade e dominação.

A falsa neutralidade da tecnologia

Toda tecnologia carrega as marcas da sociedade que a produz. Ela não nasce fora da economia, da política e dos conflitos sociais. A inteligência artificial que hoje se apresenta como novidade radical nasce dentro de um mercado digital já profundamente concentrado, marcado pelo poder das Big Techs, pela captura massiva de dados, pela opacidade algorítmica e pela dependência crescente de infraestruturas privadas.

Por isso, a IA não pode ser compreendida apenas pelo que aparece na tela. O chatbot, a imagem gerada, o resumo automático, o assistente de produtividade e a recomendação personalizada são a superfície visível de uma estrutura muito mais ampla. Por trás deles existem data centers, modelos fundacionais, chips, nuvem, energia, bases de dados, acordos comerciais, exploração de trabalho humano, disputas regulatórias e monopólios de distribuição.

A promessa é simples: mais eficiência, mais produtividade, mais personalização, mais velocidade. Mas uma leitura materialista precisa olhar para o circuito completo dessa promessa. Eficiência para quem? Produtividade apropriada por quem? Personalização baseada em quais dados? Velocidade a serviço de quais interesses?

A ideologia dominante da tecnologia sempre tenta apresentar suas ferramentas como inevitáveis. Primeiro, afirma que a inovação é neutra. Depois, que a sociedade precisa apenas aprender a usá-la melhor. Por fim, transforma qualquer crítica em resistência ao futuro. Foi assim com as redes sociais, com a plataformização do trabalho e agora com a inteligência artificial.

A história recente das Big Techs deveria nos tornar mais cautelosos. As mesmas empresas que prometeram democratizar a informação construíram ambientes de dependência, vigilância, monetização da atenção, desinformação em escala e concentração inédita de poder comunicacional. Agora, muitas dessas mesmas empresas querem liderar a próxima etapa da vida digital, dizendo que a inteligência artificial será apenas uma ferramenta a serviço da humanidade. Quem acredita nessa promessa?

A nova concentração digital

A inteligência artificial generativa exige capacidade computacional gigantesca, acesso a nuvem, energia, semicondutores, equipes altamente especializadas e volumes imensos de dados. Essas condições favorecem empresas que já eram gigantes antes da atual corrida tecnológica.

Google, Microsoft, Amazon, Meta, Nvidia, OpenAI, Anthropic e outras empresas disputam produtos, mas também posições estratégicas em uma nova infraestrutura econômica. Algumas controlam a nuvem, outras controlam modelos, chips ou plataformas de distribuição. Muitas controlam mais de uma dessas camadas ao mesmo tempo.

É nesse ponto que o debate sobre IA se conecta diretamente à crítica das Big Techs. Estamos diante de um novo ciclo de concentração, em que empresas privadas podem passar a mediar não apenas o que vemos, mas também o que escrevemos, pesquisamos, resumimos, planejamos, decidimos e automatizamos.

Isso altera a própria natureza da comunicação. Se as redes sociais já haviam concentrado a distribuição de conteúdo, a inteligência artificial tende a concentrar também a produção, a interpretação e a organização da informação. A plataforma não apenas entrega a mensagem: ela passa a sugerir a mensagem, sintetizar a realidade, hierarquizar as fontes, modular o tom, prever o comportamento e automatizar interações.

Essa mudança precisa ser analisada como poder, não como conveniência.

Trabalho, autoria e captura de valor

A inteligência artificial também recoloca o debate sobre trabalho. Ela pode substituir funções, reduzir equipes e precarizar atividades, mas também se alimenta de trabalho humano acumulado.

Textos, imagens, códigos, músicas, pesquisas, bases públicas, conversas, traduções, comentários, avaliações, fotografias, vídeos e documentos foram produzidos por milhões de pessoas, instituições, profissionais e comunidades. Esse imenso repertório social virou matéria-prima para sistemas privados que agora são vendidos como soluções comerciais.

Há, portanto, uma operação clássica de captura de valor. O conhecimento socialmente produzido é processado, modelado e convertido em ativo proprietário. A máquina parece produzir sozinha, mas sua produtividade depende de uma longa cadeia de trabalho humano visível e invisível.

Isso vale também para os trabalhadores que classificam dados, moderam conteúdos, corrigem respostas, testam sistemas e executam tarefas repetitivas para tornar os modelos mais aceitáveis ao mercado. A inteligência artificial é vendida como automação, mas continua sustentada por formas concretas de trabalho, muitas vezes mal remuneradas, terceirizadas e invisibilizadas.

O discurso da inovação tenta apagar essa base material. Fala-se em “modelo”, “aprendizado”, “inteligência”, “agente” e “automação” como se estivéssemos diante de uma entidade quase autônoma. Mas a IA depende de infraestrutura, energia, trabalho, dados, propriedade e mercado.

A crítica, portanto, não precisa assumir um tom moralista, como se a tecnologia ameaçasse uma suposta essência humana. O problema está no tipo de sociedade que se organiza quando a inteligência artificial passa a ser desenvolvida por poucos grupos privados, treinada com conhecimento coletivo e vendida como infraestrutura indispensável para todos.

Verdade, democracia e esfera pública

Para quem trabalha com comunicação, política e mobilização social, talvez esse seja o ponto mais sensível. A inteligência artificial chega a uma esfera pública já fragilizada pela dependência das plataformas.

Nos últimos anos, campanhas, mandatos, organizações, movimentos e empresas aprenderam a se comunicar dentro de ambientes controlados por terceiros. Instagram, Facebook, Google, YouTube, TikTok, X e WhatsApp se tornaram infraestruturas centrais de circulação pública. Mas essas infraestruturas pertencem a empresas, têm regras próprias e mudam algoritmos sem aviso. Ao venderem alcance, reduzem a distribuição orgânica. Definem formatos, capturam dados e intermedeiam relações.

Com a IA, essa dependência pode se aprofundar. A mediação deixa de estar apenas na entrega do conteúdo e passa a estar também na sua produção e interpretação. Ferramentas de IA podem resumir uma notícia, sugerir uma resposta, gerar uma peça, classificar um público, prever engajamento, simular uma conversa e automatizar atendimento. Tudo isso pode ser útil, mas também acaba ampliando a capacidade de interferência privada sobre a linguagem, a atenção e a ação coletiva.

O uso de IA exige compreensão da estrutura de poder em que ela opera. Uma campanha pode ganhar produtividade com ferramentas de automação. Um mandato pode organizar melhor suas respostas. Uma organização pode analisar dados com mais velocidade. Uma empresa pode melhorar processos internos. Mas, se tudo isso estiver apoiado exclusivamente em infraestruturas fechadas, sem controle sobre bases próprias, critérios transparentes e estratégia de comunicação direta, o ganho operacional pode vir acompanhado de nova dependência.

O debate sobre democracia digital precisa sair da superfície. Fake news, impulsionamento e moderação de conteúdo não são problemas separados. Eles fazem parte de uma mesma arquitetura, na qual poucos grupos privados controlam os meios de circulação, monetização e organização da informação. A inteligência artificial acrescenta mais uma camada a essa arquitetura.

Regular não basta, mas importa

A regulação da IA já entrou na agenda internacional. A União Europeia avançou com o AI Act. Governos, tribunais, universidades, sindicatos, organizações da sociedade civil e organismos multilaterais discutem transparência, segurança, direitos autorais, proteção de dados, discriminação algorítmica, responsabilidade civil e usos de alto risco.

Esse movimento é importante. Mas regulação, sozinha, não resolve o problema da concentração. Pode limitar abusos, exigir transparência, definir responsabilidades e criar salvaguardas. Ainda assim, se a infraestrutura continuar nas mãos de poucos grupos privados, a sociedade seguirá dependente de empresas que operam em escala global, com enorme poder econômico e capacidade permanente de pressão política.

Por isso, o debate precisa combinar regulação, fiscalização, soberania tecnológica e organização social. A agenda pública precisa enfrentar os termos de desenvolvimento e uso da tecnologia.

Quem controla os dados? Quem audita os sistemas? Quem define os parâmetros? Quem pode contestar uma decisão automatizada? Quem tem acesso aos benefícios? Quem paga o custo ambiental dos data centers? Quem protege trabalhadores afetados pela automação? Quem impede que modelos privados reorganizem mercados inteiros sem controle público? Essas perguntas não são técnicas. São políticas.

A resposta não é nostalgia analógica

Criticar a inteligência artificial não significa defender uma volta impossível ao passado, abandonar plataformas ou tratar toda automação como ameaça. Esse tipo de resposta seria frágil e pouco útil.

Precisamos usar tecnologia sem aceitar a ideologia das empresas que a controlam. Incorporar ferramentas sem confundir conveniência com autonomia. Ganhar produtividade sem entregar nossa inteligência estratégica aos donos da infraestrutura.

Para campanhas, mandatos, organizações e movimentos, isso tem consequências práticas. Não basta estar nas redes, impulsionar conteúdo e gerar alcance através dos algoritmos. É preciso construir bases, organizar dados e principalmente criar vínculos.

A comunicação digital precisa ser compreendida como infraestrutura política. Uma base de contatos bem organizada vale mais do que um pico de visualizações. Uma lista segmentada com consentimento pode ser mais estratégica do que uma audiência grande e passiva. Um canal direto com apoiadores, clientes, filiados, eleitores ou comunidades pode proteger uma organização das oscilações de plataforma. É nesse ponto que a crítica às Big Techs deixa de ser apenas diagnóstico e vira método de trabalho.

Comunicação direta como autonomia

A EVAG tem insistido nessa ideia porque ela se tornou incontornável. A disputa digital não será vencida apenas com bons posts, bons vídeos ou bons anúncios. Eles são importantes, mas insuficientes. O centro da disputa está na capacidade de transformar audiência em base organizada.

Isso vale para uma campanha eleitoral. Vale para um mandato. Vale para uma organização da sociedade civil, uma entidade de classe ou empresa que precisa construir relacionamento com seus públicos.

A dependência das plataformas produz fragilidade. Quando todo contato passa por redes privadas, a organização perde controle sobre sua própria capacidade de comunicação. Fica submetida a mudanças de algoritmo, bloqueios, custos crescentes de mídia paga, redução de alcance e regras que não controla.

A inteligência artificial pode agravar essa fragilidade se for incorporada apenas como camada de automação sobre uma estrutura já dependente. Mas pode também ser usada de forma mais inteligente quando está subordinada a uma estratégia própria: bases qualificadas, segmentação responsável, canais diretos, análise de dados, comunicação contínua e respeito ao consentimento.

Esse é o caminho que interessa: uso crítico, estratégico e politicamente consciente das ferramentas digitais, sem recusa abstrata da tecnologia e sem adesão ingênua ao discurso das Big Techs.

A disputa é sobre poder

A Magnifica Humanitas parte de uma linguagem religiosa, mas o debate que ela recoloca é público. A inteligência artificial não pode ser tratada como assunto privado das empresas que a desenvolvem, tampouco pode ser reduzida a uma pauta de especialistas.

Ela diz respeito ao trabalho, à democracia, à educação, à cultura, à comunicação, à segurança, à soberania e à vida cotidiana. Diz respeito à forma como sociedades inteiras serão organizadas nos próximos anos, a quem terá poder para decidir e a quem restará apenas se adaptar.

Quando até o Vaticano percebe que a IA precisa ser discutida como problema social, talvez seja hora de movimentos, mandatos, entidades, campanhas e organizações abandonarem a ilusão de neutralidade tecnológica.

As Big Techs não são apenas fornecedoras de ferramentas. Elas são agentes políticos e econômicos cujas plataformas organizam fluxos de informação, seus algoritmos condicionam comportamentos, seus modelos de negócio dependem da captura de dados e atenção, e suas novas ferramentas de IA ampliam esse poder. A crítica à inteligência artificial deve ser crítica do poder, não nostalgia analógica.

O futuro digital será disputado por quem desenvolve modelos avançados, mas também por quem consegue construir autonomia, base, vínculo e capacidade própria de comunicação. Entre uma tecnologia subordinada ao interesse público e uma tecnologia subordinada à concentração privada, a diferença será cada vez mais concreta para campanhas, mandatos, organizações, empresas e movimentos sociais.

Essa disputa já começou.

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